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Livro

SOBRE

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Antonio Carlos Viana
cadeira nº 7

(Contista, tradutor e professor)

1944- 2016

Antonio Carlos Mangueira Viana (Aracaju, Sergipe, 1944 – idem, 2016). Contista, tradutor e professor. As narrativas de Antonio Carlos Viana têm uma marca própria: curtas e de linguagem enxuta, são construídas em torno de revelações ou reviravoltas e apresentam desfecho quase sempre surpreendente, desmascarando personagens ou retratando, por meio dessas figuras, as consequências da opressão e da miséria. 

Em 1974, estreia na literatura com Brincar de Manja, conjunto de 14 contos em torno sobretudo da infância e suas descobertas, nos quais predominam narradores em primeira pessoa. Com influência do realismo mágico, o volume é marcado pela presença do insólito: no conto que dá título ao volume, por exemplo, a morte do irmão do narrador é escamoteada por eventos como a transformação da escola em um barco que sai à deriva, levando professora e alunos. Já o conto “Parábolas dos Gatos ao Amanhecer” retrata a agonia de gatos que morrem em um vilarejo após a partida de um casal. 

Em 1976, Viana torna-se professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), instituição na qual conclui o curso de letras. Faz mestrado em teoria literária na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS) sobre a obra do escritor Nelson Rodrigues (1912-1980), que considera uma de suas influências. Cursa doutorado em literatura comparada na Universidade de Nice, na França, pesquisando as poéticas de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e do francês Paul Valéry (1871-1945). 

Em 1981, lança Em Pleno Castigo. De 1989 a 1990 participa do grupo responsável pela implementação do curso de pós-graduação em letras da UFS. Concilia a produção literária com as atividades de docente. Publica O Meio do Mundo (1993), mas decide se afastar do mercado editorial, alegando descontentamento com a qualidade das publicações e afirmando que só voltaria a publicar por grandes editoras. Em 1995, aposenta-se na universidade e cria, em Aracaju, um curso preparatório de redação. 

Publica O Meio do Mundo e Outros Contos (1999), que reúne 30 narrativas recolhidas nos livros anteriores. Além do universo infantil, aborda temas como o envelhecimento, a repressão do desejo sexual, a solidão que persiste no interior dos relacionamentos. Na narrativa que dá título ao volume, “O Meio do Mundo”, o personagem Tonho conta como se deu sua iniciação sexual: menino, é conduzido pelo pai, no meio do sertão nordestino, à casa de uma carvoeira que se prostitui, vivendo aí o rito de passagem para a maturidade. 

Enquanto para meninos como Tonho o início da vida sexual se dá por imposição sexual, meninas como a protagonista de “Barba de Arame” sofrem abuso sexual. Nessa narrativa do livro seguinte, Aberto Está o Inferno (2004), a personagem sem nome, que vive em uma região de mangue, aceita o abuso praticado por um desconhecido que lhe promete construir uma latrina, vendo nele a imagem de Jesus. 

Os contos de Viana se apresentam ora em primeira pessoa, ora em terceira, e expõem sem sentimentalismo as consequências da opressão e da miséria para as personagens. Nesses casos, predomina o olhar solidário sobre as personagens, cujo ponto de vista frequentemente irrompe na narrativa por meio do discurso indireto livre. É o que acontece, por exemplo, na seguinte passagem, a respeito de um dos episódios de abuso em “Barba de Arame”: “Ele falou que sim, ia mandar fazer uma latrina bem joia para ela e a mãe [...]. Só foi ruim a barba e o cheiro de vinho estragado que vinha de sua boca”. 

A violência velada está no cerne de muitos eventos narrativos, que em geral surgem casualmente, permitindo ao autor explorar a dinâmica de famílias, vizinhanças, vilarejos e cidades. No conto que dá título a Cine Privê (2009), seu Manuel, faxineiro de um cinema pornográfico, limpa cabines e vive a privação do próprio desejo no casamento – relação marcada por culpas e ressentimentos. Desse mesmo livro, “Eliazar, Eliazar” tem em comum com “Meu Tio Tão Só”, da coletânea de 1999, a trajetória de um protagonista homossexual que se suicida por sofrer preconceito e exclusão. 

Já a violência patente surge em contos como “Santana Quemo-Quemo” e “Duas Coxinhas e um Guaraná”, que abrem o livro de 2009. O primeiro narra a ação de despejo que leva à loucura a mãe do narrador; no segundo, o narrador conta o assassinato da própria mãe. A morte, aliás, é tema recorrente e está presente em quase todos os textos de Cine Privê. A concisão da linguagem leva o poeta e professor Paulo Henriques Britto (1951) a considerar Viana “o João Cabral do conto”. 

Em Jeito de Matar Lagartas (2015), a velhice se torna tema preponderante e se manifesta de diferentes formas: a solidão de Ineide em “Roteiro da Solidão”; a dificuldade de aceitar os sinais da passagem do tempo no corpo em “Dona Katucha”; a fúnebre festa de aniversário de um ancião em “Professor Locarno”; a redescoberta do próprio corpo e do desejo em “Florais”. Ainda assim, persistem as características e as predileções de volumes anteriores, como mostra “Cara de Boneca”, um dos mais conhecidos contos de Viana, no qual o narrador relembra episódios de sua puberdade relacionados a seu Lilá, carroceiro que sofre pacificamente diversas formas de humilhação, servindo os meninos do local em uma espécie de iniciação à masculinidade. 

Povoada de figuras ingênuas e crianças que sofrem as consequências da miséria e das injustiças brasileiras, e também de adultos que as reproduzem quase sempre sem consciência, a literatura de Antonio Carlos Viana explora em linguagem contida eventos que geram surpresa e comoção. Por essa combinação, o autor é considerado um dos principais contistas da literatura brasileira.

https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa363623/antonio-carlos-viana

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